Category: Contos para reflexão


A águia e a flecha

Sobre Pontes e Muros

Recebí de meu amigo Andrade um lindo conto intitulado " As pontes da União". Faço a  reflexão de hoje baseada nesta edificante mensagem. Obrigada, nobre professor!
 
AS PONTES DA UNIÃO
 

 

Dois irmãos que moravam em fazendas vizinhas, separadas apenas por um riacho, entraram em conflito.Foi a primeira grande desavença em toda uma vida de trabalho lado a lado.Mas agora tudo havia mudado. O que começou com um pequeno mal entendido, finalmente explodiu numa troca de palavras ríspidas, seguidas por semanas de total silêncio. Numa manhã, o irmão mais velho ouviu baterem à sua porta.

-Estou procurando trabalho, disse ele. Talvez você tenha algum serviço para mim.

-Sim, disse o fazendeiro. Claro! Vê aquela fazenda alí, além do riacho? É do meu vizinho. Na realidade, do meu irmão mais novo. Nós brigamos e não posso mais suportá-lo. Vê aquela pilha de madeira ali no celeiro? Pois use para construir uma cerca bem alta.

-Acho que entendo a situação, disse o carpinteiro. Mostre-me onde estão a pá e os pregos.

O irmão mais velho entregou o material e foi para a cidade.O homem ficou ali cortando, medindo, trabalhando o dia inteiro.Quando o fazendeiro chegou, não acreditou no que viu: em vez de cerca, uma ponte foi construída ali, ligando as duas margens do riacho. Era um belo trabalho, mas o fazendeiro ficou enfurecido e falou:

-Você foi atrevido construindo essa ponte depois de tudo que lhe contei.

Mas as surpresas não pararam aí. Ao olhar novamente para a ponte viu o seu irmão se aproximando de braços abertos. Por um instante permaneceu imóvel do seu lado do rio. O irmão mais novo então falou:

-Você realmente foi muito amigo construindo esta ponte depois do que eu lhe disse.De repente, num só impulso, o irmão mais velho correu na direção do outro e abraçaram-se, chorando no meio da ponte. O carpinteiro que fez o trabalho partiu com sua caixa de ferramentas.

-Espere, fique conosco! Tenho outros trabalhos para você.

E o carpinteiro respondeu:

-Eu adoraria, mas tenho outras pontes a construir…

Já pensou como as coisas seriam mais fáceis se parássemos de construir cercas e muros e passássemos a construir pontes com nossos familiares, amigos, colegas do trabalho e principalmente nossos inimigos?…

Obs.: "Que exista sempre essa ponte que nos une".

(Charles Kattering)

 

Disse Isaac Newton: " Construimos muitos muros e poucas pontes!" Esta é uma afirmação atemporal pela verdade que até hoje encerra…E muros há por toda parte, em nossas casas, no ambiente de trabalho, nos partidos políticos, nas religiões, nas fronteiras armadas dos paises e, o pior deles, pois que de material por vezes indestrutível: os muros invisíveis que construímos ao redor de nós mesmos…

 

Lembro-me agora de um muro famoso: a Muralha da China, que com seus 6000 km pode ser  vista da Lua… Quanto sacrifício, quantas vidas perdidas na construção de um símbolo de separação de homens, de poder e defesa… Os muros nos relembram nossa condição de lobos do próprio homem (homo homini lupus…), nos avivam a contradição que existe na convivência pacífica…

 

Não é fácil derrubar um muro e nem sempre sua derrubada servirá à construção de uma ponte…Basta pensarmos na histórica queda do Muro de Berlim (09/11/1989)… Simbolicamente  bom…mas que avanços houve rumo à PAZ entre os povos? E nestes tempos de muitas mudanças externas e raras internas, nas guerras ainda atuais, pontes ainda são alvos primeiros no ataque ao inimigo…

 

E porque é tão difícil derrubar um muro? Primeiro porque é preciso que se queira derrubá-lo e segundo, é necessário aprender a viver sem ele. Isso significa que é preciso querer se aproximar, sentir necessidade do contato com o outro. Viver sem um muro, seja este material ou imaterial, é estar vulnerável, é conseguir lidar com a exposição de si ao olhar alheio – seja de aprovação, seja de reprovação. Pontes levam ao desconhecido outro; muros protegem do desconhecido outro…

 

O que nos impele a construir um em detrimento de outro? Nossos sentimentos de ódio, nossa razão enfraquecida, nossa ignorância (o não conhecimento) ergue os muros; ao contrário, nossa tolerância, as variantes do Amor, nossa compreensão de nós mesmos e do outro faz com que construamos pontes.

 

Quantas pontes poderiam ser construídas com os tijolos do diálogo? diálogo entre vizinhos, parentes, países… Quantas surgem a cada nova amizade? Construímos pontes quando deixamos de lado nosso egoismo, nossa indiferença, quando abrimos a porta de nossos corações às batidas do nosso semelhante que sofre… E a cada vez que nos deixamos cegar pela ira, a cada vez que agimos como instrumentos de difamação do outro, a cada vez que disseminamos falácias e preconceitos colocamos mais um tijolo que irá fortalecer a estrutura de nossos muros…

 

À guisa de nos protegermos das ameaças externas, a cada novo muro aumenta o nosso próprio isolamento; ao nos distanciarmos do outro, já não pode haver distância segura que nos proteja, pois que nele vemos um inimigo em potencial… Podemos escolher o que construir com o mesmo número de tijolos; porém, nossa comodidade, nosso egoísmo prefere a arquitetura mais simples… Esquecêmo-nos todos de que quanto mais fechados em nossos domínios, mais se estreita nossa visão… Pensemos nisso…

 

 
O texto que segue é do filósofo e escritor francês Jean-Marie Muller; penso que é uma excelente complementação para a reflexão de meus amigos:
 
"A violência constrói muros e destrói pontes. A não-violência nos convida a derrubar muros e construir pontes. Tarefa extremamente difícil. A arquitetura dos muros não exige qualquer imaginação: basta seguir a Lei da Gravidade; enquanto a das pontes exige muito mais inteligência: é preciso vencer a força da gravidade. Os muros mais visíveis que separam os homens são os de cimento que martirizam a geografia e dividem a terra que necessita ser compartilhada. Mas existem também muros no coração e na mente dos homens. São os muros de ideologias, preconceitos, menosprezos, estigmatizações, rancores, ressentimentos, medos. Apenas aqueles que, seja qual for o campo em que atuam, tiverem a lucidez, a inteligência e a coragem de derrubar esses muros e construir pontes que possibilitam aos homens, às comunidades e aos povos se encontrarem, se reconhecerem, dialogarem e começarem a se compreender, somente estes são os artesãos da paz que salvaguardam o futuro da humanidade."

A harpa mágica

A harpa mágica
 
Uma vez um homem estava viajando e, acidentalmente, entrou no paraíso.Em um venerado mosteiro conservava-se uma Harpa mágica, da qual,segundo os antigos oráculos, brotaria uma melodia maravilhosa no dia em que fosse dedilhada por um artista capaz de tocá-la devidamente.
Atraídos pelo oráculo e na esperança de se tornar famosos, muitos iam ao santuário, garantiam que eram grandes harpistas e pediam para que lhes deixassem tentar tocar a harpa mágica.Mas todos fracassavam, do instrumento só saiam os mais desagradáveis ruídos.
Tanto os monges que viviam no mosteiro quanto o povo do lugar já haviam perdido as esperanças de que pudesse aparecer alguém capaz de tocar o instrumento misterioso quando, um dia, apresentou-se ali um humilde homem.Era um desconhecido e ninguém imaginava que chegaria a conseguir aquilo que tantos músicos célebres haviam fracassado.
Quando o homem começou a dedilhar o instrumento com delicadeza, como se estivesse acariciando as cordas com os dedos,tinha-se a sensação de que a harpa e o harpista haviam sido fundidos em um único ser.Durante bastante tempo, que a todos lhes pareceu como um segundo, ouviram uma melodia com a qual sequer poderiam ter sonhado.
Por fim, o homem acabou de tocar e devolveu com grande reverência a harpa aos monges; estes, maravilhados, perguntaram-lhe como conseguira tocar aquela música com um instrumento do qual os mais famosos músicos não haviam sido capazes de tirar sequer uma nota afinada.
Então o homem respondeu com grande humildade: todos os que me precederam na tentativa chegaram com o propósito de usar a harpa para se envaidecer; eu, apenas me submetí inteiramente a ela e emprestei-lhe meus dedos, para que não fosse eu  a lhe impor minha música, mas que ela pudesse cantar tudo o que leva dentro de si. Então, a madeira da harpa, que havia sido uma árvore centenária, vibrou para cantar o ritmo do Sol e da Lua, os resplendores da aurora e do ocaso, a força do vento, o rumor da chuva, o silêncio das nevadas, o calor do verão e o frio do inverno, a ilusão de tantas primaveras e a tristeza do outono; em suma, a história da própria natureza. É um instrumento maravilhoso que não pode ser tocado por aqueles que estão cheios de si mesmo; é preciso esvaziar-se diante da harpa para deixar que ela mesma toque a sua melodia…     Autor desconhecido
  
  A Fé, a Ciência e a Razão
 
 
A Ciência – Nunca me fareis acreditar na existência de Deus.
 
A Fé – Não tendes o privilégio de acreditar, mas nunca me provareis que Deus não existe.
 
A Ciência – Para vo-lo provar, é preciso que, em primeiro lugar, eu saiba o que é Deus.
 
A Fé – Não o sabereis nunca. Se soubésseis, poderíeis ensinar-mo e, quando eu o soubesse, não mais acreditaria nele.
 
A Ciência – Acreditais, então, sem saber em que estais acreditando? 
 
A Fé – Ali!não joguemos com as palavras. Sois vós quem não sabeis em que eu acredito, precisamente porque vós não o sabeis. Tendes a pretensão de ser infinita? Não sois interrompida a cada instante pelo mistério? O mistério é para vós uma ignorância que reduziria ao nada o finito de vosso saber, se eu não o iluminasse com minhas ardentes inspirações, e quando dizeis: Eu não sei mais, eu gritaria: Quanto a mim, começo a acreditar.
 
A Ciência – Mas vossas aspirações e seu objeto são e só podem ser hipóteses para mim.
.
A Fé – Sem dúvida, mas são certezas para mim,uma vez que sem essas hipóteses eu duvidaria até mesmo de vossas certezas.
 
A Ciência – Mas, se começais onde eu paro, começais temerariamente muito cedo.Meus progressos atestam que eu ando sempre.
 
A Fé – Que importam os vossos progressos, se ando sempre na vossa frente?
 
A Ciência – Tu, andar! sonhadora da eternidade, desdenhaste demais a terra, teus pés estão dormentes.
 
A Fé – Sou carregada por meus filhos!
 
A Ciência – São cegos que carregam um ao outro, cuidado com os precipícios!
 
A Fé – Não, meus filhos não são cegos, muito pelo contrário, desfrutam de dupla visão, vêem por teus olhos o que podes demonstrar para eles na Terra e contemplam, pelos meus, o que lhes mostro no céu.
 
A Ciência – O que a razão pensa disso?
 
A Razão - Penso, ó caras mestras, que poderíeis realizar um apólogo tocante, o do paralítico e o do cego. A Ciência censura a Fé por não saber andar na Terra, e a Fé diz que a Ciência não vê nada no céu das aspirações e da eternidade. Ao invés de brigarem, ciência e fé deveriam unir-se: que a ciência carregue a fé e a fé console a ciência, ensinando-lhe esperar e amar.
 
A Ciência – Essa idéia é bela, mas uma utopia. A fé dir-me-á absurdos,e eu quero andar sem ela.
 
A Fé – O que é que chamais de absurdos?
 
A Ciência – Chamo de absurdos as proposições contrárias às minhas demonstrações, como, por exemplo,que três são um, que um Deus fez-se homem, isto é, que o infinito fez-se finito.Que o Eterno morreu, que Deus puniu seu filho inocente pelo pecado dos homens culpados…
 
A Fé -Não digas mais nada. Externadas por ti, essas proposições são, de fato, absurdos.Por acaso sabes o que é o número em Deus, tu que não conheces Deus? És capaz de raciocinar sobre as operações do desconhecido? És capaz de entender os mistérios da caridade? Devo ser sempre absurda para ti, pois se entendesses minhas afirmações, elas seriam absorvidas por teus teoremas; eu seria tu, e tu serias eu, para dizer melhor, eu não existiria mais, e a razão, em presença do infinito, deter-se-ia sempre cegada por tuas dúvidas tão infinitas quanto o espaço.
 
A Ciência – Pelo menos, nunca usurpes minha autoridade, não me desmintas em meus domínios.
 
A Fé – Nunca o fiz, e não posso nunca o fazer.
 
A Ciência – Assim, nunca acreditaste, por exemplo, que uma virgem possa ser mãe sem deixar de ser virgem, e isso na ordem física, natural e positiva, a despeito de todas as leis da natureza; não afirmas que um pedaço de pão é não somente um Deus, mas um corpo humano verdadeiro, com ossos e veias, órgãos, sangue, de maneira que fazes de teus filhos que comem esse pão um povo antropofágico.
 
A Fé – Não é cristão quem não se revolte com o que acabaste de dizer. Isso prova o suficiente que eles não entendem meus ensinamentos dessa maneira positiva e grosseira. O sobrenatural que afirmo está acima da natureza e não poderia, por conseguinte, opor-se a ela, as palavras de fé só são compreendidas pela fé; nada que, em as repetindo, a ciência desnature. Sirvo-me de tuas palavras, porque não tenho outras; mas uma vez que achas meus discursos absurdos, deves concluir que dou a essas mesmas palavras um significado que te escapa. O Salvador, ao revelar o dogma da presença real, não disse: A carne aqui não tem nenhuma serventia, minhas palavras são espírito e vida? Não te apresento o mistério da encarnação como um fenômeno de anatomia nem o da transubstanciação como uma manifestação química. Com que direito gritarias ao absurdo? Eu não raciocino sobre nada do que conheceis; com que direito dirias que eu disparato?
 
A Ciência – Começo a te compreender, ou melhor, vejo que nunca te compreendí. Nesse caso, continuemos separadas, nunca precisarei de ti.
 
A Fé – Sou menos orgulhosa e reconheço que me podes ser útil. Talvez sem mim estarias bem triste e bem desesperada, e não quero separar-me de ti, a menos que a razão o consinta.
 
A Razão – Não façais isso. Sou necessária a ambas. E eu, que faria sem vós? Preciso saber e crer para ser justa. Mas nunca devo confundir o que sei com o que acredito. Saber não é mais acreditar, acreditar não é saber ainda. O objeto da ciência é o conhecido, a fé não se ocupa dele e deixa-o inteiramente à ciência. O objeto da fé é o desconhecido, a ciência pode buscá-lo, mas não definí-lo; é portanto forçada, pelo menos provisoriamente, a aceitar as definições da fé que lhe é até mesmo impossível de criticar. Somente se a ciência renuncia à fé, renuncia à esperança e ao amor, cuja existência e necessidade são, no entanto, tão evidentes para a ciência quanto para a fé. A fé, como fato psicológico, pertence ao domínio da ciência, e a ciência, como manifestação da luz de Deus na inteligência humana, pertence ao  domínio da fé. A ciência e a fé devem, portanto, aceitar-se, respeitar-se mutuamente, até mesmo sustentar-se e socorrer-se nas necessidades, mas sem nunca usurpar uma à outra. O meio de as unir é nunca as confundir. Mas não deve haver contradição entre elas, pois servindo-se das mesmas palavras não falam a mesma língua.
 
A Fé – Pois bem! irmã ciência, o que dizeis disso?
 
A Ciência – Digo que estávamos separadas por um deplorável mal-entendido e que, doravante, podemos andar juntas. Mas a qual de seus símbolos vais-me associar? Serei judia, católica, muçulmana ou protestante?
 
A Fé – Continuarás sendo a ciência e serás universal.
 
A Ciência – Ou seja, católica, se bem compreendo. Mas o que devo pensar das diferentes religiões?
 
A Fé – Julga-as por suas obras. Procure a caridade verdadeira e, quando a tiver encontrado, pergunta-lhe a que culto pertence.
 
A Ciência - Não será certamente  ao dos inquisidores e dos carrascos da Noite de São Bartolomeu.
 
A Fé – É ao de São João, o Esmoler, de São Francisco de Sales, de São Vicente de Paulo, de Fenelon e de tantos outros.
 
A Ciência – Reconheceis que, se a religião produziu algum bem, fez também muito mal.
 
A Fé – Quando se mata em nome do Deus que disse: Não matarás, quando se persegue em nome daquele que quer  que se  perdoe os inimigos, quando se propaga trevas em nome daquele que não quer que se oculte a luz, será justo atribuir o crime à própria lei que o condena? Dize, se quereis ser justa, que, apesar da religião, muito mal foi feito na Terra. Mas, também, quantas virtudes ela fez nascer, quantos devotamentos e sacrifícios ignorados? Contaste estes nobres corações de ambos os sexos que renunciaram a todas as alegrias para se pôr ao serviço de  todas as dores? Essas obras devotadas ao trabalho e  à oração que passaram fazendo o bem? Quem pois fundou asilos para os órfãos e os idosos, hospícios para os doentes, retiros para o arrependimento? Essas instituições tão gloriosas quanto modestas são obras reais de que os anais da Igreja estão cheios; as guerras de religião e os suplícios dos sectários pertencem à política dos séculos bárbaros. Os sectários, aliás, eram eles próprios assassinos. Esquecestes a fogueira de Miguel Servet e o massacre de nossos padres renovado ainda em nome da humanidade e da razão pelos revolucionários da Inquisição e da Noite de São Bartolomeu? Os homens são sempre cruéis, quando esquecem a religião que os abençoa e perdoa.
 
A Ciência – Ó fé, perdoa-me então se não posso acreditar, mas sei agora porque és tão crente. Respeito tuas esperanças e partilho de teus desejos. Mas é pesquisando que eu encontro e é preciso que eu duvide para pesquisar.
 
A Razão – Trabalha e  procura, então, ó ciência, mas respeita os oráculos da fé. Quando tua dúvida deixar uma lacuna no ensinamento universal, permite à fé preenchê-la. Andai distintas uma da outra, mas apoiadas uma na outra, e nunca vos separeis.
                 Eliphas Levi
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.